Misericórdia, anos 50

Nossa foto de hoje mostra mais um capítulo das violentas demolições que privaram a cidade do Rio do seu núcleo primal, o Morro do Castelo e a posteriores as áreas em suas fraldas, principalmente junto ao litoral que tinhas as melhores condições portuárias, o Bairro da Misericórdia, surgido com um pequeno porto com fortins e por onde a cidade partiu rumo a sua expansão.
As demolições foram tão radicais que de tudo que vemos aqui apenas um prédio sobrevive, o prédio do velho Tribunal de Justiça que vemos por cima dos sobrados, essa fúria destrutiva nos desnorteia geograficamente e tentarmos descobrir que rua vemos na foto é um senhor exercício de espacialidade.
Os trilhos de bonde pouco esclarecem e a posição tanto do Mercado como do velho tribunal ajudam a embaralhar as coisas mais ainda. Estudando alguns mapas de arruamento desde o séc XIX, passando por fotos aéreas dos anos 20, fotos aéreas dos anos 60 e 70 e muitas ao rés do chão do desaparecido bairro especulo que estávamos vendo de frente a velha Rua da Misericórdia, logo após ao largo de mesmo nome, a rua que segue rumo ao mercado pode ser o velho Beco da Música. A mureta que vemos na esquerda era uma das laterais rebaixadas da Praça dos Expedicionários e as rochas, bem as rochas não eram desse lugar. Sobrava muito pouco do Morro do Castelo para se produzir tanto material e essa era uma área urbanizada antes dos sobrados na nossa frente serem todos demolidos em alguns dos planos urbanísticos daquela região, desde o primeiro projeto para a Esplanada antes do Plano Agache. Acredito que pela data estávamos vendo algum “bota-fora” da demolição do Morro de Santo Antônio, mas é só especulação.

17 comentários em “Misericórdia, anos 50”

  1. Lembrei do que vi em Curitiba. Lá, o núcleo histórico da cidade é preservado, se não todos os prédios, pelo menos o arruamento. A poucos quarteirões da movimentada 15 de Novembro, a Praça Garibaldi, Rua S.Francisco e Largo da Ordem mantêm o clima pacato dos séculos passados. Acho que se o Morro do Castelo tivesse sobrevivido, teríamos algo parecido aqui no Rio.
    É o que eu sempre digo, o Rio de Janeiro teve o azar de passar pela fase mais importante de seu crescimento justamente numa época em que a mentalidade dominante era rejeitar o passado.

  2. Foto inédita para mim.
    Me lembro que até a década de 70 ainda havia esta mentalidade de rejeição ao passado aqui no Rio.
    O Rafael citou Curitiba, mas uma cidade que também se observa um grande cuidado na preservação é Salvador.

    1. Salvador é hors-concours, é o que o Rio deveria ser. Só que lá a preservação, pelo que sei, foi causada pelo fenômeno inverso que ocorreu no Rio: a cidade passou por uma certa decadência e o que era antigo chegou quase a virar ruínas, sendo recuperado apenas nas últimas décadas. Situação semelhante a outras cidades históricas do país.
      Quanto a Curitiba, seu centro histórico é pouco lembrado, as atrações mais badaladas da cidade são as construções mais modernas.

  3. Interessante foto. Se vocês especialistas no assunto não conse-
    guem decifrar o enigma eu entâo estou perdido.Reconheço o
    mercado e imagino que os bondes ou seguiam em frente ou
    dobravam á esquerda para passarem em frente ao referido mer-
    cado.Quanto as rochas deveriam estar ali esperando serem le-
    vadas para algum quebra mar , eu suponho.

  4. Foto muito interessante.A legenda deveria ser: Como descaracte
    rizar a cidade em 100 anos.Se fica dificil pra você André decifrar
    o enigma da foto imagina eu que não sou expert no assunto.
    Mas vou dando os meus pitacos (termo bem antigo). Os trilhos
    dos bondes indicam obviamente que eles deveriam seguir em frente mas pra onde , ou dobrariam á esquerda passando em
    frente ao mercado suponho.

  5. Essas rochas aí são realmente um mistério…
    André, por um mapa antigo vejo que a linha de bonde vinha pela Primeiro de Março, continuava pela Rua da Misericórdia e quando chegava no Largo do Moura se bifurcava, um ramal indo em direção à Santa Casa/Av Beira Mar e outro seguia pela Rua Clapp em direção à Praça XV.

  6. Quando se viaja pela Europa na maioria absoluta dos lugares se pode visitar o Centro Histórico. É local de peregrinação turística. Por aqui, desapareceu quase tudo.
    Gostei da frase “essa fúria destrutiva nos desnorteia geograficamente e tentarmos descobrir que rua vemos na foto é um senhor exercício de espacialidade.”

    1. Não é só na Europa, Luiz, em vários lugares do Brasil também. Mesmo assim o Rio ainda tem algo a mostrar, ao contrário de São Paulo e Buenos Aires que só preservaram um único prédio cada uma (respectivamente o Pátio do Colégio e o Cabildo).

  7. Foto complicada esta… mas pelo que pude entender de um mapa de 1935, estamos vislumbrando o quarteirão demolido da Travessa da Música a partir da Rua da Misericórdia.
    Em destaque na foto vemos a bifurcação dos trilhos do bonde na Rua da Misericórdia que segue à esquerda, e esquina com a Travessa Costa Velho em acesso à antiga Rua Clapp que passava nos fundos do antigo Palácio da Justiça.
    Para melhor coompreensão: http://2.bp.blogspot.com/_oRKz7E2mq_U/SsM7PLoQT7I/AAAAAAAAAik/nZLoizy_MnI/s1600-h/1935-largo-moura.jpg

    1. Só um complemento… o correto é Beco da Música, e o local de onde a foto foi tirada é hoje os fundos do atual Tribunal de Justiça, bem junto ao desembarque dos carros oficiais dos desembargadores, próximo a via lateral à Praça dos Expedicionários.

  8. Permitam lembrar que a Praça Saenz Penã comemora 100 anos.
    Parabéns a todos os Tijucanos, pela data.

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