Largo do Estácio, anos 40

Em mais uma fantástica foto de Ferreira Júnior, gentilmente enviada por seu afilhado Sidney Paredes Rodrigues vemos uma cena de cotidiano no Largo do Rio Comprido Estácio nos anos 40.
O Largo do Estácio é um dos logradouros que destemunha o avanço da cidade para os sertões, notadamente  a partir do séc. XVII para os engenhos dos Jesuítas, sendo o caminho natural após o Mata-Cavalos e posteriormente do caminho da Sentinela ou Novo do Conde Cunha. As primeiras vias que saiam do núcleo primitovo da cidade e iam se esqueirando junto a encosta ( Mata-Cavalos) ou por trechos mais altos entre os charcos, pântamos e Lagoas da região fronteira ao Mangal de São Diogo e os pântamos junto aos Morros de Santo Antônio e Senado.
Região apreciada pelos bandoleiros que no seticentismo praticavam assaltos pilhando cargas de alimentos e gêneros que se dirigiam a cidade, se escondendo logo após no denso matagal que envolvia os caminhos.
O largo possivelmente surgiu em virtude do entroncamento dos velhos caminhos urbanos, rumo ao sertão com a sua principal via de penetração, o Caminho do Engenho Velho, hoje rua Haddock Lobo. Nesses remotos tempos já havia sido erigida no local uma pequena capela dedicada ao Divino Espírito Santo, certamente para abençoar os viajantes que partiam e os que chegavam.
Pouco a pouco foi surgindo um pequeno núcleo urbano  em volta do largo e da pequena capela, que ia se transformando em igreja com o passar dos anos. No local por inciativa do Marquês do Lavradio foi montada uma das primeiras indústrias da cidade, uma fábrica de encordoamentos para navios, que dava uma noção da importância do porto do Rio naquela época.
Em 1899 a primitiva igreja, na realidade a velha capela com várias ampliações e modificações como pode ser visto em uma gravura de 1817 de Thomas Ender foi demolida para dar lugar ao templo que até hoje se encontra no local.
Antres da abertura da Pres. Vargas, e da construção do sistema viário do Trevo das Forças Armadas o largo tinha o papel da Praça da Bandeira de hoje, de ser a porta de entrada para a Zona Norte e Subúrbios da cidade, por quem se deslocava de carro, bonde ou ônibus, sendo nos anos 40,50 e 60 ponto constante de transito pesado e congestionamento.
A foto além do bonde mostra muitos elementos da época, como os carros, o mobiliário urbano, com destaque para a placa de parada de bonde, já sem os refúgios expondo os passageiros ao transito, um escondido posto da Standart Oil já com a bandeira Esso e um conjunto de sobrados muito antigo, na extrema direita da imagem, com velhas telhas canal,  hoje demolido.
Hoje o largo se encontra mutilado, sendo uma das vítimas das desastrosas “requalificações” urbanas implementadas no Catumbi e Cidade Nova e também pelas danosas demolições do Metrô, sendo fronteiro a ele  uma das mais importantes estações do sistema. A Estácio, ponto de transbordo norte do sistema do Metrô entre as linhas 1 e 2, e que com a construção da absurda e inconcebível linha 1-A está sendo abandonada como também todo o prolongamento da Linha -2 até a Carioca, destino natural e CERTO da Linha 2.
Agradecemos a colaboração do amigo Walter Govea, que descobriu o local com precisão, pois eu estava com dúvidas, principalmente pela anotação da foto, que indicava o Largo do Rio Comprido.

21 comentários em “Largo do Estácio, anos 40”

  1. Realmente a fotografia é espetacular. Compartilho da sua opinião sobre o Rio Comprido desta época. O viaduto, uma grande solução em termos de trânsito, acabou com o bairro. Fico imaginando os moradores da Avenida Paulo de Frontin que viveram até esta época num local agradabilíssimo e desde a década de 70 estão sufocados pelo trânsito. Isto sem falar, é claro, das favelas que circundam a área.

    1. Honorio Vargas,
      conversei no dia 14 de novembro com uma senhora moradora do Rio Comprido desde 1948 e foi exatamente uma das coisas q me contou. o Hospital Alemão ficava onde hoje é o Hospital da Aeronáutica. O prédio foi tomado pelo governo durante a guerra e de lá eles se transferiram para a rua da Estrela e logo depois mudaram o nome para Amparo Feminino.
      sds,
      Sheila Castello

  2. Mais uma vez, agradeço a publicação da foto produzida por meu padrinho, enriquecida pelos comentários e referências históricas do André, que potencializam o trabalho do fotógrafo.
    O casamento de imagem e texto, novamente, ficou perfeito.
    As lembranças do Rio Comprido me são muito boas, pois lá moraram meus avós, meus pais e lá foi onde nasci.
    Pena que, como a Rua Jardim Botânico, a Av.Paulo de Frontin, tenha se transformado em mera via de passagem, descaracterizando um bairro tão bonito e repleto de tradições…
    Enfim, é o progresso…

  3. Caro Andre,
    Permita-me contribuir com uma correção. Na foto vemos o Largo do Estácio e não o Largo do Rio Comprido. A direita do bonde vemos o gradil do Hospital da Polícia Militar e uma frondosa arvoré que até hoje resiste. A esquerda do bonde fica a subida do Morro de São Carlos. O posto de gasolina também continua firme na mesma esquina, só que agora não tem mais bandeira, embora preserve as cores vermelha e branca. É interessante ressaltar que no prédio, encoberto pelas arvorés, situado em oposição ao posto de gasolina estava instalada a loja matriz das Casas da Banha. Todo o casario à direita foi derrubado para a construção da Estação Estácio do Metro. O itinerário do bonde que seguia na direção do Centro da Cidade indica “Estácio – Frei Caneca”.

    1. Walter, pensei também no Largo do Estácio, mas as fotos que eu tenho da Igreja do Divino a torre parece bem mais aguda que a da foto. E como ela veio identificada pelo fotógrafo como Largo do Rio Comprido, mesmo com dúvidas mantive o lugar. Para complicar o bonde 47 passava por ambos os lugares no seu caminho para o fim da Rua Santa Alexandrina, complica mais ainda pela verdadeira terra arrasada que transformou essa região, com as demolições entrando Haddock Lobo a dentro desde os anos 80.
      Abraços e obrigado

  4. Walter, você está certo, se fosse pegadinha já teria matado a charada. Vemos claramente o posto de gasolina que fica na esquina da rua Maia Lacerda. Mais a frente vemos a torre da igreja Divino Espírito Santo, no final da rua Estácio de Sá e início da Haddock Lobo, quase em frente a rua Joaquim Palhares. O lado direito da rua Estácio de Sá, realmente foi todo demolido a pouco mais de 10 anos.

  5. Depois do comentário do Walter Gouveia a situação foi muito bem esclarecida. Realmente , o lugar é o largo do Estácio. Em 1970, quando o Brasil foi tricampeão mundial de futebol, eu tinha um grupo de fãs do meu conjunto de rock que morava nesse prédio ao lado do posto Esso depois da Rua Maia Lacerda!!
    Excelente comentário seum Walter Gouveia!!!

  6. Ouvi hoje que o Ministério Público vai pedir a suspensão dos serviços da Linha 1A até que todas as obras estejam prontas. O argumento do MP foi o mesmo já descrito em vários posts do André, principalmente a questão do ângulo da descida dos trilhos para chegar aos da Linha 1 original.

  7. O Estácio foi mutilado pelo Metrô, mas pelo menos vem escapando da destruição total sofrida pela vizinha Cidade Nova.
    Aliás é bom lembrar que aquela região é violentada pelo governo desde o século 19. Começando com a construção da linha férrea que desconectou o Santo Cristo da Cidade Nova, mais tarde a abertura da Presidente Vargas que fragmentou ainda mais a região, culminando com o Metrô e o Teleporto que arrasaram completamente o que restava. Talvez a única revitalização digna que a região sofreu foi a construção da Avenida do Mangue, que era bem aprazível até os anos 40.

  8. Realmente a foto tirada por meu padrinho apresentava uma referência manuscrita como sendo o Largo do Rio Comprido. Ignoro quem a colocou, mas tenho certeza absoluta que não foi Ferreira Júnior, que, além de profundo conhecedor da cidade, sempre fora morador do Estácio, em um casarão, bem no início da rua de São Carlos.
    Eu não dispunha de conhecimento para fazer qualquer correção, tendo em vista, inclusive, a idade da foto.
    Peço desculpas ao André, por havê-lo induzido ao equívoco, e, também aos leitores, mas tudo ficou muito bem resolvido.

  9. Muito se falou do Estácio e pouco do Rio Comprido, bairro que passei 21 anos da minha vida, dos 5 aos 26 anos de idade, ou seja de 1942 até 1963.
    Não se falou do Largo do Rio Comprido que até coreto tinha e ali se juntava o que chamávamos de ferro-velho, num esforço para auxiliar na Segunda Grande Guerra. Não se falou das ruas que chegavam ao Largo, no sentido dos ponteiros do relógio: Av. Paulo de Frontin, Aristides Lobo, Estrela, Santa Alexandrina, Av. Paulo de Frontin e Bispo. Não se falou que para construção do Viaduto duas fileiras de flamboyants foram sacrificadas ao longo de toda a extensão da Av. Paulo de Frontin. E os bondes que por ali passavam: Estrela (46), Bispo (48), Santa Alexandrina (47), Itapiru (44), Catumbi (43), Itapiru-Barcas (45) e ainda o 40 e o 42, que não me recordo.
    O Edifício que morei na Avenida ainda ali está no número 543. E tem muito mais…
    Gil Portugal

  10. No início dos anos 60 fiz o 4º ano primário no Colégio Estácio de Sá, se não me engano no início da Maia Lacerda. Saí do Rio em 62, retornei algumas vezes a trabalho ou a passeio, sem a oportunidade de rever o local. A foto me trás gratas recordações. José Antonio

  11. Estudei no Colégio Estácio de Sá no início dos anos 60 – 4º ano primário. A foto me trouxe gratas recordações daquela época. Pena que por conta, segundo dizem, da deflagração do local, perdi completamente o interesse em visitar o meu antigo bairro. É uma pena.
    José Antonio

  12. A foto não é do Largo do Estácio, mas foi tirada na subida do Morro do São Carlos. O Largo do Estácio fica a uns 200 metros dai e abriga a Igreja que se pode ver na foto ao fundo, a Igreja do Divino Espirito Santo.

  13. Andre Decourt, tudo bom, seu site é muito interessante e vem de encontro com algo que estou pesquisando. po um acaso vc tem imagens da Igreja de São Joaquim (fachada e interior). Estou pesquisando esta igrejapara um trabalho de pós graduação. se vc puder ajudar agradeço imensamente.

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