Abertura da Rua Henrique Oswald 1938


Nossa foto de hoje mostra a abertura da Rua Henrique Oswald, a primeira que viria a compor o futuro Bairro Peixoto totalmente arruado anos depois, não sem muita discussão e respeitando os desígnios do proprietário de toda a região o Comendador  Felizberto Peixoto.
A Rua Henrique Oswald foi aberta já no final da grande chácara comendador que seguia ainda um pouco mais até as vertentes do Morro da Saudade onde se conflitava com propriedade da Marinha do Brasil que ali mantinha seu hospital militar, nesta época já em franco processo de transferência para o Lins de Vasconcelos.
Ela não fazia parte do histórico PA PDF 3850/43, que criava um bairro pensado na escala humana, este PA substituiu o  agressivo 3281/39, que por sua vez  substituiu o PA 2990/38 que embora muito interessante e abrangendo uma área ainda maior, criava muita articulação com as ruas no entorno.
A foto é muito interessante mostrando alguns elementos desconhecidos de quase todo mundo, a começar pelo chafariz em estilo neo-colonial, no centro da foto e já sendo demolido. Esse chafariz de existência curtíssima, executado como parte da duplicação do Túnel Velho na Adm. Prado Júnior e entregue pouco depois, possui apenas uma outra foto,  de Malta, pouquíssima divulgada e acredito eu ainda não digitalizada pelo AGCRJ. Ele ficava num pequeno larguinho,bem na saída do túnel, um pequeno refúgio com os das antigas estradas turísticas, larguinho esse que também desaparecia com a retirada do revestimentos de paralelepípedos e corte das amendoeiras que lhe margeavam.
Esse pedaço dos terrenos do Comendador mais seco, servia para o plantio de capim, usado para o pasto das vacas leiteiras que forneciam leite ao seu curral, que os vendia in natura onde hoje passa a Rua Figueiredo de Magalhães, esquina de Tonelero,  a foto também mostra que os muros da propriedade estavam sendo derrubados.
Mais à frente vemos o castelinho normando da família Calmon de Sá, que chega aos nossos dias, tombado pelo patrimônio histórico, mas em estado de semi-abandono e sofrendo as pressões da favelização especulativa da Favela dos Cabritos/Tabajara onde empresários escusos levantam prédios de até 09 andares a espera de uma nova Muzema.
Ao seu lado temos o “escadão” que galga morro acima a partir da Rua Santa Clara, nesta época a escada ainda chegava somente ao Beco Felipão, uma continuação mais estreita da Rua Euclides da Rocha, terreno este onde mesmo com a tal UPP em tempos cabralianos o carro do Google foi barrado pelos traficantes que nunca foram embora daquele pedaço. Mais acima vemos a Euclides da Rocha, como poucas casas ocupadas por praças de Marinha, Portugueses e Açorianos.
Acompanhando o morro, já na Rua Santa Clara, que teve seu trecho final pavimentado e arborizado em 1937 vemos as enormes casas que existiam na encosta, com destaque da casa normanda da família Chermont de Britto, demolida para a construção do prédio de número 377 da Rua Santa Clara, descendo mais um pouco vemos mais duas sobreviventes junto com o castelinho dos Calmon de Sá, o bico do telhado da casa de número 353, que sobreviveu a demolição das duas outras casas da mesma família por volta de 2006, demolições que violaram a APA do Bairro Peixoto, por meio de uma ação na justiça que correu as margens da sociedade civil, que aliás foi a peticionante e solicitante da legislação de proteção de toda área, quando descoberta já havia transito em julgado, não só as casas foram perdidas graças a uma atuação anêmica do MP, que não trouxe ao autos a associação de moradores e da PGM que se limitou a descrever o arcabouço legal, bem como a nova construção usou o gabarito dos anos 70 com uma construção de 45 metros de altura, 30 a mais que a legislação atual estabelece.
Já no extremo esquerdo vemos a outra sobrevivente, na realidade um conjunto normando constituído de um prédio junto a rua e uma gigantesca mansão na encosta hoje ocupada pelo IMPA, vemos inclusive a enorme torre do elevador que dá acesso da casa, com quase 30 metros de altura, sua vizinha de número 345, com tipologia muito parecida caiu nos anos 70, substituída pelo edifício mais alto da rua, com quase 60 metros de altura.
O curioso que o capim era tão alto nas terras da chácara que todas as casas junto a encosta construídas sobre um muro de arrimo de mais de 4 metros em média pareciam rentes a calçada.
Por fim a foto também nos mostra que a Rua Siqueira Campos, como todas as que tinham linhas de bonde em boa parte da cidade, já tinha  seu sistema de iluminação transferido dos postes padrão Light (nesse trecho com luminárias em média altura) para luminárias pendentes em cabo de aço no meio da via, fato esse que possibilitou em 1065 essas mesmas ruas serem as primeiras a serem convertidas para vapor de mercúrio dado a facilidade do processo de substituição de luminárias.
Foto para ser apreciada em resolução máxima, como também clicar nos links em negrito.
 

11 comentários em “Abertura da Rua Henrique Oswald 1938”

  1. É perfeito o termo empregado para designar a atuação do MP. O “Parquet” só não é anêmico quando se trata seus astronômicos salários e das suas “vantagens”, já que se sua precípua atribuição de “Fiscal da lei” o Rio de Janeiro não se encontraria no lamentável estado em que se encontra. Quanto aos “empreendimentos” na região da Ladeira dos Tabajaras, é possível encontrar no Facebook imóveis à venda por R$ 50.000,00 na rua Euclides da Rocha, ou pela metade do preço se for “no tijolo”. Querendo ou não a região se degradou ainda mais após o advento da “Nova República”, pois a região da Siqueira Campos, que “já não era uma Brastemp”, acabou decaindo ainda mais. A quantidade de camelôs e a desordem pública em frente à estação do Metrô não deixam dúvidas, apesar de o Bairro Peixoto ainda ser um local bastante aprazível.

  2. Sensacional a foto e o post André. Icônica a imagem do escadão da Rua Santa Clara ao lado do castelinho normando da família Calmon de Sá, talvez as poucas construções ainda existentes nos dias de hoje. No mais, a incrível capacidade de nós cariocas destruirmos nossa Cidade. A verticalização observada nesse trecho de Copacabana foi completamente agressiva, obstruindo a vista da paisagem natural que emoldurava essa parte da Cidade. A favelização, talvez mais agressiva nas décadas mais recentes, ajuda a completar a destruição da paisagem. O trecho da Euclides da Rocha, que no passado poderia ter se integrado a própria Santa Clara, hoje é isolado do restante do bairro e área de domínio absoluto do tráfico de drogas. Parabéns pelo post!

  3. Olá Amigos:
    Tenho seguido a vossa página, aqui de Portugal, com muito interesse.
    O meu interesse pela “alma Carioca” vem da minha procura de documentos ligados a um bisavô meu que emigrou para o Brasil cerca de 1879, regressando a Portugal em 1894. A minha pesquisa foi-me dando a conhecer os recantos de Botafogo que eu vou conhecendo palmo a palmo, como se já aí tivesse vivido…
    Ele teve um armazém de secos e molhados da rua Voluntários da Pátria, no nº 109. Ora este número já não existe e pode ter sido ocupado com a construção do casarão Betchinger em 1898 (o nº 107) ou ter permanecido após a sua construção ficando-lhe contíguo. Procuro plantas urbanas dessa época que me ajudem a localizar o estabelecimento. Podem ajudar-me com todo o manancial de informação e saber que têm sobre este bairro carioca? Fico grato e à disposição para aquilo em que possa ser útil aqui de Portugal.
    Saudações

  4. Boa tarde, Andre! Tenho acompanhado as publicações do site e creio que guardam informações muito úteis para um trabalho que estou realizando sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade.
    Estou investigando o passado do Rio pelos livros, pelo cinema, pela poesia de Drummond (com foco no recorte da chegada do poeta à cidade, 1934, até o fim da 2ª Guerra) e também pela fotografia. Encontrei o seu site e fiquei muito interessado pelo que vi.
    Um dos capítulos do meu trabalho vai tratar do Morro do Castelo e fiquei impressionado com a foto desse post: http://www.rioquepassou.com.br/2010/09/23/largo-e-ladeira-da-misericordia-primeira-metade-dos-anos-60/
    O senhor saberia informar a autoria, se é de algum acervo ou arquivo pessoal que te enviaram?
    Teria algum e-mail em que poderia contatá-lo?
    Abraços

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