Grande Hotel Rosso & Hotel Riviera – Uma esquecida história carioca


 
O grande edifício Egalité, que ocupa o todo o lado par da Av. Rainha Elizabeth sempre chamou a atenção, mesmo numa verticalizada Copacabana, principalmente por ter na praia, lojas e sobre-lojas e antigamente todas de propriedade do BEG (que as cedia para órgãos do estado), sempre aventei ter sido algum problema com a construtora a propriedade das lojas, mas mesmo assim a tipologia soava estranha para o local.
Mas ao pesquisar sobre o prédio emparedado do antigo Hotel Riviera descobri por acaso a história do Egalité, que é uma adaptação do projeto de um gigantesco hotel, o Rosso, do empresário Aldo Rosso, dono do Riviera, do Grande Hotel de Petrópolis, do Bar Ok. e sócio em vários outros empreeendimentos hoteleiros e de alimentação na então capital federal.
O nome Rosso começa a aparecer nos registros municipais quando da constituição da empresa individual Aldo Rosso Hotel.  Para a incorporação do Hotel Riviera por volta do início do ano de 1937, quando o prédio originário começa a ser licenciado para o hotel, como vemos por fotos ele é contemporâneo ao Casino Atlântico (1935) , e seguia os ditames do Plano Agache, revogado em 1930, possivelmente a aprovação do projeto seria anterior a 1930, o prédio foi construído por terceiros (Miguel Accetta – “Banqueiro”)  para o uso hoteleiro, e primeiramente arrendado e posteriormente comprado pelo Sr. Rosso..
Rapidamente o Riviera passou a ser um dos melhores hotéis da cidade, ótima localização, moderno, sempre com uma cozinha e bar entre os melhores da cidade, um serviço de buffets para festas dos mais requisitados da cidade, como podemos ver nas colunas sociais e uma administração personalizada pelo Sr. Aldo e seu imediato o Sr. Willi, que rivalizava com a Cia Palace dos Guinle. Os jardins do prédio, hoje desaparecido, era usado não só como terrace pós praia mas como cenário para jantares e brunchs, inclusive oferecidos pelo governo brasileiro a legatários estrangeiros, corpo diplomático e tripulações de navios estrangeiros que aqui atracavam, os pilotos do Grand Prix da Gávea etc….
Os apartamentos do Riviera eram equipados com sistema de telefonia, geladeira tendo vários possuindo pequenas copas para estadias mais longas, pois era hábito de estrangeiros e solteiros endinherados residirem em hotéis de classe.
O prédio do Riviera ganhou seu anexo por volta do início dos anos 40 dada a fama que o hotel alcançava e a empresa começa a sua expansão, primeiro compra o Grande Hotel de Petrópolis por volta de 1941, em 1942 o famoso Bar Ok. e no mesmo ano Aldo Rosso inicia a compra de vários imóveis perto do Riviera, na esquina com a Av. Rainha Elisabeth, totalizando uma área de 2.000 metros quadrados, uma área expressiva mesmo numa Z. Sul cheia de grande áreas vagas.
O Brasil vivia o boom do turismo, o jogo, a distância da guerra, as belezas da cidade atraiam turistas, grande parte estrangeiros, faltavam hotéis no Rio.
Aldo Rosso, junto com empresários Cariocas e Paulistas cria a Cia. Hotel Riviera S/A, para não só gerir os hotéis da rede, mas também para connstruir o Hotel Rosso, o que seria o maior hotel da cidade. Notas sobre o empreendimento começaram a pipocar na imprensa ainda em 1943, mas as dificuldades da guerra, das inúmeras exigências da prefeitura para um prédio tão grande, anunciava-se em 1944 que o hotel teria 500 apartamentos, foram retardando a empreitada.
Anunciado com estardalhaço em 1946 o  grande prédio, projetado por  Luiz Fossati, arquiteto de outro prédio mítico, o Hotel e Casino Quitandinha, teria o que de mais moderno poderia oferecer um hotel no imediato pós guerra, 330  grandes apartamentos todos com banheiro completo jardim de inverno totalmente envidraçado, ar condicionado central, sistema telefônico, salão de convenção para 1.000 pessoas, lojas para atendimento dos hóspedes, e um centro de lazer na cobertura.

As obras começariam rápido e os velhos prédios do início da ocupação do bairro seriam demolidos ainda em 1946.

A capitalização da S/A para a construção do hotel, talvez tenha sido um passo maior que as pernas para Aldo Rosso, enquanto ele organizava sua nova sociedade e aprovava face a burocracia dos setores de urbanismo e licenciamento da prefeitura o enorme complexo hoteleiro, o ex nazi-simpatizante e novo presidente Gal. Dutra pressionado por sua carola esposa acabava em abril de 1946 com o jogo e dava a facada que sangraria o turismo internacional do país para sempre, chegando ao estágio do turismo sexual e brega atual, que praticamente nada agrega a nossa economia de hoje.

 
No final de 1946 a Hotel Riviera S/A tentava atrair pequenos investidores para a empreitada, nomes estrelados do Rio e de São Paulo como Moreira Salles, Pareto, Martinelli, Gianetti, Falcão etc.. não conseguiam fomentar o aumento de capital para suportar a grande construção. Mesmo com companhias de navegação como a Moore McCormak pedindo mais hotéis, o turismo internacional no Rio começava a arrefecer, o fim do jogo e dos cassinos que não conseguiam manter suas luxuosas estruturas e plantel de  artistas começavam a minar o glamour carioca, os fantasmas dos mochileiros esfarrapados  e apertadores de parafusos do leste europeu de hoje começavam a surgir num longínguo horizonte.


Já em 1947 credores reclamavam seus créditos perante a companhia, e era decretada sua concordada, sendo a falência decretada em 1949, apenas 3 anos após seu voo mais alto.


O hotel ainda é tocado por Aldo Rosso mantendo seu alto padrão de atendimento, mas o patrimônio  sociedade vai sendo  vendido para o pagamento dos credores. A  Aldo Rosso coube apenas a gerenciar seu hotel, toda a operação financeira passa ao síndico da massa falida.

Ainda em  1951 onde seria o grande Hotel Rosso já tínhamos a incorporação do edifício Egalité, com sua planta modificada, embora muito parecido com o projeto original, não sabemos se alterada pelo arquiteto original ou por terceiros.

Em 1952 Aldo Rosso não está mais no seu antigo hotel, sua fama lhe assegura não só seus serviço de Buffet tão aclamado mas também o restaurante do Hotel Ouro Verde, sendo aí iniciada a fama de se comer bem nesse hotel que continuou por quase 50 anos. O Ouro Verde até o final dos anos 90 foi um dos melhores lugares para ser comer da cidade.
Mas ao longo de  1953 o hotel começa a sair das colunas sociais e ir para as páginas de esporte, quase todas as delegações esportivas estrangeiras começam a se hospedar no Riviera, talvez fruto de uma política de preços mais agressiva para salvar o negócio.

Em 1953 já vemos que o prédio  primitivo do hotel perde seu finalidade e é convertido para de apartamentos normais, certamente fruto do leilão judicial que desmembrou os prédios, que já haviam sido vendidos para terceiros, certamente na tentativa de se erguer o Hotel Rosso, vemos todo o patrimônio da Hotel Riviera S/A indo a leilão.
 

 
No início de 1955, o Riviera é vendido para a cadeia Hotur, que já tinha na cidade o Hotel Regente, vemos que o prédio pioneiro não mais aparece no anúncio, apenas o fino anexo ainda constitui o hotel.

No final do ano Aldo Rosso falece, encerrando o que poderia ser um ciclo virtuoso na hotelaria da cidade.

Por fim  em 1957 a última pá de cal na antiga elegância do Hotel Riviera é colocada anuncia-se as últimas unidades do  prédio construído em seus jardins.
 
Recomendo ampliar os recortes de jornal, bem como acessar os dois links em negrito
 

13 comentários em “Grande Hotel Rosso & Hotel Riviera – Uma esquecida história carioca”

  1. Eu morei no Egalité entre Dezembro de 69 e Setembro de 1971 e fui testemunha ocular da obra de duplicação da Avenida Atlântica, cujo andamento acompanhava diariamente da janela. Pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana o número é 1335 e pela Avenida Atlântica é 4066. Sempre achei os apartamentos com uma estranha disposição, pois o hall social de cada apartamento é individual. São dois ótimos quartos, um deles com armário embutido, dependências de empregada, e um tímido banheiro social. Todos os apartamentos são de frente e a garagem é no condomínio. Já foi um prédio melhor conservado e atualmente deixa a desejar. Em 1970 vivia-se em paz, sem assaltos, com uma mínima incidência de violência ou drogas, afinal era um tempo em que “cada um conhecia o seu lugar”…

  2. Pesquisa incrível ! Sempre achei o Egalité exageradamente grande para um prédio de luxo. Agora tá explicado ! Meu pai e dois tios trabalharam no Ouro Verde no final dos anos 50 e sempre falaram muito bem da comida de lá. Por pouco não conheceram o Aldo Rosso.

  3. Bom dia a todos.
    Assim é a cultura do Brasil e, em especial, do RJ.
    É o que eu sempre digo: A culpa não é somente da classe Política, mas também da própria estrutura aqui implantada desde o início de nossa colonização, passando pela cultura local, o indesejável “jeitinho brasileiro”, bandidos, criminosos de toda a estirpe, e uma incrível “burocracia” que chegou ao século XXI, sem falar de nossa adorada hipocrisia, que dificulta em todos os aspectos crescer esse país e essa cidade, transformando o Brasil em um “Paquiderme Aleijado”, sem sombras de dúvidas.
    E depois há pessoas que não entendem como chegamos ao “fundo do poço”.
    Veja o caso do Hotel Glória nos dias de hoje.

  4. Pesquisei na internet os preços de venda e locação no Egalité e fiquei surpreso. Alguns apartamentos foram completamente reformados e são irreconhecíveis, tal o luxo e o bom gosto das peças. Os apartamentos em tela são de três, suíte, e uma vaga, e o preço para a venda é de R$ 2.990.000, e para a locação é de R$ 8.000,00. São preços inviáveis para a grande maioria.

  5. Passei algumas vezes pelo prédio quando tomava o 484 voltando da praia mas conheço pouco da zona sul. Atualmente vou à praia no Alvorada, mais conveniente para mim pela condução farta do BRT, mas os edifícios da região não podem ser comparados com os de Copacabana.

  6. Mais uma oportunidade perdida para sempre de manter a nossa cidade
    em voga com classe e lucro.
    Mais uma esclarecedora história ,tirando qualquer dúvida sobre o que aconteceu na época.
    Hoje para nós cariocas da gema,naõ há plano B .Estamos totalmente sem rumo.

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