Zona Bancária, Rua Primeiro de Março com Ouvidor, 1973

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Novamente um fotógrafo da Life fotografa o coração da  velha zona bancária do Rio de Janeiro, tal como foi feito em 1939, em foto já dissecada aqui, em Dezembro passado ( http://www.rioquepassou.com.br/2008/12/12/ ). Nos deslocamos da velha Rua da Alfândega para as igualmente primais Rua Direita e Ouvidor.
Estávamos em pleno Milagre e nunca havia se ganhado tanto nas bolsas, essa região do Centro fervilhava, fortunas eram criadas na especulação fácil. Carrões, motocas, rolex, cordões e pulseiras da Masson e da Natan, títulos de clubes, mulheres, algumas “fáceis” outras não, circulavam por essa região, que se agitava com essa prosperidade fugaz, embora os próximos anos mostrariam bem a realidade, sem os ufanismos nacionalistas do regime.
Temos uma cena tipicamente guanabarina, em primeiro plano o guarda com a última palavra em comunicação policial, um enorme walkie-talk, e seu boné branco, que  entrega que sua atribuição era o transito, assiste impotente todo o tipo de transgressão. O transito  completamente esculhambado, os carros engarrafados, com o sinal verde avançam pela faixa de pedestres, e os pedestres com o sinal fechado avançam sobre os carros.
Os dois senhores contrastam, em grande felicidade fotográfica. O de terno caqui, adequado ao calor que parecia fazer, avança com cara de irritação por entre os carros com um cigarro no canto da boca, já o outro mais franzino de terno escuro, prefere aguardar prudentemente, mas não tanto, na beira da pista, uma boa chance de atravesar,  e certamente o fará com o sinal vermelho também.
Os sinais, já com a configuração de duas cores do DETRAN-GB ainda não possuiam nesse ponto as placas de fibra de vidro zebradas, mas tanto o arranjo como as cores em verde bem azulado e os repetidores de pedestres eram típicos dos primeiros anos da cidade-estado, onde os velhos equipamentos americanos foram sendo modernizados dentro do possível.
A Primeiro de Março já havia ganho a iluminação de mercúrio em postes curvos padrão 9 metros, sendo uma das pioneiras do Centro, a Rua do Ouvidor ainda estava iluminada por velhos lustres da Light, e vemos que as arcadas começavam a desaparecer junto aos prédios mais novos, substituídas por luminárias pendentes em cabos de aço. E assim ficou até o início dos anos 90.
A instituição financeira na esquina, nem precisa de letreiro, se valendo apenas da sua logomarca esculpida no mármore do vértice da esquina e em desenhos nos blindex, e ao lado mais um prédio sobe, substituindo os velhos sobrados, muitos com a estrutura básica do séc XVIII.

11 comentários em “Zona Bancária, Rua Primeiro de Março com Ouvidor, 1973”

  1. Foto bem emblemática do caráter do povo brasileiro, cujo herói e símbolo é o Macunaíma e a lei que impera é a do Gérson.
    Os transgressores da foto são, basicamente, engravatados e o único carro em cima da faixa parece ser Dodge Dart, um carro caro e da nossa elite. Se a nossa elite é essa, o que esperar do povão boçal? O cabo da PM tem duas condutas possíveis: se desonesto, levar uma “cervejinha”; se honesto, multar e correr o risco de esbarrar em alguém bem relacionado, o que fará que seja transferido para longe.

  2. Decourt brilhante como sempre, extraindo até a última gota de informação de uma foto que passaria batida por olhos menos treinados…
    Eu já tinha visto essa foto nos arquivos da Life e a princípio fiquei na dúvida quanto à localização, mas já tinha quase certeza que era esse lugar mesmo.

  3. maldade do pessoal acusando o incalto motorista da elite de estar em cma da faixa de pedestres… rs… vejam que o sinal para pedestres está indicando “pare” em vermelho! 🙂

  4. Desta vez, lamento discordar alguns pontos de nosso mestre Decourt:
    1- O “anônimo” está com a razão, o sinal está vermelho para pedestres, portanto errado é quem estava atravessando, mesmo com o trânsito engarrafado.
    2- Em 73 ainda não mas em 74 eu já tinha tirado a carteira de motorista e, me lembro bem, até cheio de temor, da rigorosidade dos guardas de trânsito da época. Não só multavam como muitas vezes iam atrás de você (muitas vezes obrigando outro carro particular a dar carona) e mandavam parar para examinar os documentos e saber se estava tudo em ordem. Ai de nós se não estivesse…
    E mais: todo mundo te multava, não só os guardas de trânsito, mas até bombeiros e sentinelas de quartel se testemunhassem qualquer irregularidade.
    3- Pra finalizar, acredito eu, e se minha parca memória não falha, que o aparelho que está na mão do guarda não é um walk-talk e sim um registrador de multas eletrônico que ele “descarregava” no quartel quando terminava o expediente (tá muito grande pra ser walk-talk e me recordo vagamente de uma noticia de jornal da época sob este aparelho que estava em experiência).

  5. Ao contrário do Rafa e como o JBAN, também achava que a foto era de Copacabana. Mas nada como o especialista em mobiliário urbano do Rio para esclarecer a todos. As ampliações são o máximo. O apetrecho na mão do guarda também…

    1. À primeira vista eu também achei que fosse Copacabana, mas depois vi que pelo jeito dos prédios não poderia ser lá. Confirmei através da placa com o nome da rua, não dá pra ler mesmo em alta mas se percebe que é algo do tipo xxxxxx xx xxxxx então não poderia ser Barata Ribeiro nem N.S.Copacabana. Daí deduzi que seria no Centro e só poderia ser a Primeiro de Março.

  6. Pois eu vi, revi, olhei e não consegui descobrir o local. Aliás, como foi que vc descobriu? Não há como ler a placa de maneira nenhuma. E o prédio da esquina, tentei puxar pela memoria, mas não o “visualizo”.
    🙂

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